(Português) Uma lição de… humidade – ou – Peninsula Mitre, vislumbre da costa Sul.

publicado en: Tierra del Fuego | 13

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Tudo começa onde acaba a estrada. A estrada J, que sai da Ruta 3, já por si a estrada do fim do Mundo. No final da estrada J fica o Puesto Moat, destacamento da Prefectura, uma espécie de polícia marítima cá do sítio. Deste Puesto três homens vigiam o canal Beagle, do lado Argentino, os cruzeiros que passam, vão e vêm da Antártida. A vida é tranquila aqui. Quando não estão de guarda, pescam, cozinham e comem, dormem, jogam ao Truco… e recebem turistas que aparecem de bicicleta no meio da chuva. Aqui dormimos a primeira noite e comemos um repasto de rei. Partimos no dia seguinte, um raro dia de Sol e pouco frio, o único assim até agora.
O tempo que se seguiu desfilou diante de nós num misto de paisagens fantásticas e improváveis, de chuvas, neves, solo húmido como não pensei que pudesse existir para algo que não se encontra em estado líquido, bagualeros de outros tempos que não vivem no mesmo século que nós, garimpeiros de ouro, cães, vacas, cavalos e aves de todos os tipos.
Primeiro o caminho fácil, prados com vista para o mar, uma noite num refúgio velho e frio mas num sítio lindíssimo, sempre seguidos de perto pelo Perrito, que gostou da nossa companhia.
Depois veio o turbal com juncos, possivelmente o pior terreno existente à face da Terra para caminhar. Pés molhados nos primeiros 20 min do dia, saltitar entre juncos enormes que crescem em tufos aleatórios entre os buracos de solo húmido em que nos podemos afundar até aos joelhos, ou quiçá até à cintura se houver algum rio ou castores por perto. Vieram também os bosques centenários, de árvores estóicas, permanentemente inclinadas pelos ventos existentes ou imaginários, e os lagos enormes onde se reflecte o céu cinzento e as montanhas nevadas ao longe. Passou-se o Rio Vacas, ali pela zona com pedritas e depois o juncal dos castores. Desceu-se a descida Mata Cavallos, uma pista de lama infinita de inclinação significativa e cuidadosamente mantida pela passagem regular de gado (entre dezenas a cenas de vacas) que é conduzido desde estâncias longínquas até zonas de acesso transitável. E depois, outra vez o turbal. Sempre o turbal, o impossível, insuportável turbal. Haverá turbal nos meus pesadelos durante bastante tempo, suspeito. O cansaço físico extremo, que me afecta pouco a pouco a cabeça, tem um grande comparsa, este turbal. Tudo o que resta em mim de positivismo leva machadada após machadada à medida que o turbal se estende a perder de vista.
E finalmente, o refúgio de Punta Falsa, ou Puesto Lata, para os bagualeros, onde se dorme ao quente e seco entre fumo, selas de cavalo, botas enlameadas, homens que falam um espanhol difícil de compreender, mais pela diferença abismal dos lados do prisma que por as palavras não constarem nos dicionários. Há a biblioteca do bagualero Andrade, que conta histórias de ouro e naufrágios, há o pouco convencional Palma, há os buscadores de ouro que caçam castores para alimentarem os cães e cozinham tortas fritas. Tudo se come frito neste país. Há a sanita abrigada da chuva suspensa sobre o rio e os cavalos que pastam em liberdade. E a neve que cai lá fora.
O dia seguinte é uma mistura de rajadas de neve e abertas incongruentes de Sol forte. Uma longa, longa caminhada pela costa. A praia de quilómetros bordejada de falésias imensas e inescaláveis que nos fazem correr, pensando em qual será a exactidão da hora da maré vaza prevista pelos bagualeros. No limite destas falésias a camada orgânica e húmida do turbal, que vive em cima do substracto rochoso, despenha-se falésia abaixo aos tropeçōes como se de repente lhe faltasse o chão. Terminamos o dia ao lado do Río Lopez, caminhando num turbal sem juncos. Imagine-se um campo a perder de vista, de musgo molhado, em todos os tons que vão do verde claro e firme ao vermelho diabólico, esponjoso e enganador. E poças e lagos e charcos e poços e rios a atravessar com pontes que fazemos de troncos cortados por castores. Água, água, água que cai do céu, que ensopa o solo que só não é líquido por magia. Ao longe, as montanhas nevadas. Devia ser assim a Terra, no tempo dos Dinossauros. Chegamos finalmente ao Rancho Juliano, ou refúgio do Río Lopez, para os turistas, um sítio parado no tempo onde dormimos ao quente e seco com Luís Andrade, que nos explica a vida de bagualero, em como se podem roubar umas centenas de vacas sem deixar rasto, os estancieiros ganânciosos, os cavalos preciosos.
A volta que começamos no dia seguinte dura apenas dois dias, entre bolhas, dores de pernas, pés e costas, veleiros naufragados e dragas de ouro abandonadas, praias de seixos – sempre os seixos redondos (bons para torcer tornozelos) – algas gigantes milenares, rios e turbal, e turbal, e turbal, antes de chegar por fim à linha de costa verde que nos traz de volta a Moat, onde ficamos dois dias a recuperar: dormir, comer e pescar.
Pouco a pouco apercebo-me dos sítios incríveis e únicos onde estivemos. As fotos ajudam a lembrar as coisas a que menos atenção prestei por estar apenas concentrada em conseguir continuar a pôr um pé à frente do outro para chegar aos refúgios para passar a noite. As dores e as bolhas demoram a passar, mas passam. As coisas que se se vêem e vivem não passam nunca, ficam connosco.

A caminho de Puesto Moat .
A caminho de Puesto Moat.

 

Na tenda. Roupa térmica e confortável Natural Peak.
No nosso lodge. Roupa térmica e confortável Natural Peak. «Primeira pele» fundamental para enfrentar condições hostis encontradas.

 

Pouco antes da Estancia Haberton, preparados para a noite.
Pouco antes da Estancia Haberton, preparados para cozinhar.

 

O início da caminhada, com Jonathan e Ramón.
O início da caminhada, com Jonathan e Ramón no seu turno de descanso.

 

Bosques milenares.
Bosques milenares.

 

Pausa de descanso.
Pausa de descanso.

 

Os buscadores de ouro.
Os buscadores de ouro.

 

Sinais do tempo Puesto Rancho.
Sinais do tempo no Puesto Rancho.

 

A carregar baterias em Puesto Rancho.
A secar e carregar baterias em Puesto Rancho.

 

Vista de Puerto Rancho.
Vista de Puesto Rancho.

 

Vista de Puerto Rancho.
Vista de Puesto Rancho.

 

Rancho Lata.
Rancho Lata.

 

Cozinhando no Rancho Lata.
Cozinhando no Rancho Lata.

 

A caminho de Río Lopez.
A caminho de Río Lopez.

 

A caminho de Río Lopez.
A caminho de Río Lopez.

 

O turbal.
O turbal.

 

No tempo dos dinossauros.
No tempo dos dinossauros.

 

Trabalho dos castores.
O trabalho dos castores.

 

Rancho Juliano.
Rancho Julian.

 

A draga antiga.
A draga aurífera de Popper.

 

A praia-ratoeira.
A praia-ratoeira.

 

Vista da baía Slogen.
Vista da baía Sloggett.

 

Naufrágios recentes...
Naufrágios recentes…

 

Reflexos em lagos sem vento.
Reflexos em lagos sem vento.

 

Puesto Rancho.
Puesto Rancho.

 

De volta Moat.
De volta a Moat.

 

Turbal.
Turbal.

 

A recuperação em Moat.
A recuperação em Moat.

 

 

 

 

Rámon, Jonathan, Javi, Luís Andrade, António Palma, los oreros, Sergio Dicaro

13 Respuestas

  1. Grande prova e superação! 😉

  2. He be ! Époustouflant !!!!!

  3. Que fotos bonitas 🙂

  4. Coucou !
    On a eu une petite pensée pour vous pendant le «week-end cochon»… J’espère qu’à la place vous découvrez quelques spécialités locales !
    Grosses bises
    Val

  5. Coucou !
    On a eu une pensée pour vous en faisant le cochon ce week-end ! J’espère que vous commencez à découvrir des spécialités locales pour compenser !
    Bises
    Val

    • Coucou! Mais ouiii! On goûté ce qu’on peut avec notre budget de pauvre. Mais plein de bonnes choses à goûter par ici! Bisoou

  6. Gostei do texto e do relato. Continuação de boa viagem. Beijos e abraços, Zitó

  7. Bisous de notre ancien bureau (Et oui j’ai reconquis le terrain!!)

  8. Génial, bien écris, on y est. Je me régale. C’est chouette, ce que vous faites. Bise

  9. Yes, un article en français (mes 3 semaines au Portugal cet été ne suffisent pas pour lire les articles en Portugais ! 😉 ). Jolis paysages, sauvages semble être le terme approprié. Profitez bien!

    Bises

    Max

  10. Maria Filomena Gonçalves

    Mariana e Seb que aventura!…
    Este fim de 2016 será inolvidável. Que o próximo ano vos traga tudo aquilo que mais precisarem e, por favor, continuem a contar a vossa viagem… poucas vezes na vida e raras são as pessoas que conseguem fazer uma experiência dessas e nós somos muito sortudos por partilharem connosco. Muito obrigada. Bem hajam por isso. 😘😘😘😘😘🎈🍾💞

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