A ponta do fim do mundo: el Cabo San Diego.

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Diário de Campo

1º dia: Cabañas de Pescadores -> Puesto La Chaira

  • Partida: 10h15, Chegada: 14h30.
  • Caminho na praia -> para o final, necessário maré vaza, fácil.
  • Irigoyen atravessámos perto da boca, água pelas canelas, fácil.

2º dia: La Chaira -> (antigo) Puesto Leticia

  • Partida: 10h15,  Chegada: 17h30.
  • Caminho na praia -> necessário maré vaza para a metade mais próxima de La Chaira. Próximo do Puesto Leticia passámos por cima.
  • A meio do caminho um cabo com terreno bom, atenção às vacas, cavalos, touros!

3º dia: Puesto Leticia -> Puesto Río Bueno (comida!)

  • Partida: 10h, Chegada: 16h30.
  • Espera de maré vaza para passar o Río Leticia. Passagem na praia uma hora antes da maré vaza (às 13h, esperámos das 11h30 às 13h)
  • Praia e colinas.

4º dia: Stand-by em Río Bueno, tempestade lá fora.

5º dia: Puesto Río Bueno -> (antigo) Puesto Donata

  • Partida: 11h,  Chegada: 18h30.
  • Caminho sempre pela praia, maré baixa = tatami!!!
  • Atenção aos animais ao chegar ao Puesto.

6º dia: Puesto Donata -> Estancia Policarpo (comida!)

  • Partida: 12h, Chegada: 18h00.
  • Atravessámos o Río Policarpo às 14h30, quase duas horas antes da maré vaza. MÁ IDEIA!
  • Partida às 15h30, praia + juncal.
  • Vacas!!! Por todo o lado.

7º dia: Estancia Policarpo -> Refúgio Bahía Thetis

  • Partida: 11h, Chegada: 18h30.
  • Caminho em turbal/pasto, juncal baixo, com bastante relevo.
  • Entre Refúgio Três Amigos e Bahía Thetis cortámos pelo bosque seguindo as marcas dos quadris.

8º dia: Refúgio Bahía Thetis -> Faro Cabo San Diego

  • Partida: 10h30,  Chegada: 19h30.
  • Volta da laguna Thetis muito longa, especialmente a primeira parte. Talvez possível atravessar em alguma zona mais cedo.
  • Final de turbal seco, juncos baixos e colinas.

 

A ideia de chegar ao Cabo San Diego pertence àquele tipo absurdo de ideias que se pode ter quando se olha para um mapa e se diz: “eu quero ir ver o que há ali”. No nosso caso, o “ali” em questão era a ponta do fim do mundo, a extremidade Sudeste da Tierra del Fuego, no final da península Mitre: o Cabo San Diego. O pouco de informação que fomos recolhendo, antes da nossa partida da Europa, foi confirmando o carácter selvagem da zona e alimentando a nossa curiosidade. Tínhamos um contacto precioso, o Sílvio (obrigado Steph), que tinha acompanhado os Gauchos del Mar na sua “surf-trip-itinerante-bivac”, alguns meses antes: 54 dias, cerca de 400 Km a pé. Após conversarmos com o Sílvio e vermos algumas imagens, damos por nós finalmente convencidos de querer conhecer a Península Mitre. Teríamos pela frente paisagens alucinantes e únicas, uma imersão total em meio selvagem, uma fauna e flora de uma rara riqueza e uma pesca generosa em rios selvagens. Tudo isso, ao preço de uma exposição ao risco não negligível, consequência do isolamento (a uma semana de caminhada de qualquer alma viva humana, acesso difícil, ausência de meios de comunicação), de um clima frequentemente muito pouco clemente (vento violento e chuva ou neve, humidade e frio), de um terreno de progressão por vezes muito complicada (como é o caso da turba ensopada e com juncos em que uma pessoa se pode afundar até aos joelhos ou à cintura, ver post sobre o lado Sul) e de rios potencialmente impossíveis de vadear. Ainda assim, a recompensa parecia valer a pena e começámos então uma preparação mental e logística para poder enfrentar todo o tipo de situações possíveis. A nossa caminhada no lado Sul constituiu igualmente uma preparação interessante para este projecto de chegar ao Cabo San Diego, este último de mais fácil acesso, mas com uma exposição ao risco mais significativa devido ao seu afastamento e isolamento. A Mariana tinha-se esgotado no lado Sul devido ao ritmo que nos havíamos imposto, e a ideia não era levar ao extremo a capacidade física, uma vez que íamos estar entregues apenas a nós mesmos e longe de qualquer potencial meio de socorro. Sendo qualquer pequena distracção resultante num pé torcido fortemente desaconselhada devido ao isolamento, seria então necessário estar a 200% em contínuo! Assim, planeámos dias bastante mais curtos, pagando por isso um preço de um número de dias mais elevado e portanto de um maior peso de provisões a transportar: 18 dias de autonomia!

Sexta-feira, 25 de Novembro, saída de Tolhuin: partimos então com nada mais nada menos que 25 dias de autonomia (3 dias de bicicleta para chegar à Estância Maria Luísa, 18 dias de caminhada e 4 para voltar à zona civilizada seguinte mais próxima, Río Grande). O mesmo seria dizer que o Quetzal vai carregado que nem um burro! Deixamos timidamente os nossos dias de grande conforto em casa do Brian que nos havia acolhido. Partilhamos o início da estrada com o Pablo e a sua “touring-fat-bike” que faz um barulho de camião sobre o asfalto. Rapidamente, o vento patagónico (entenda-se um mínimo de 50 Km/h – brisa – e um máximo que não parece ter limites…) nos cobre de nuvens sombrias que descarregam sobre nós. Sobre esta Ruta 3, não há de todo abrigo: a estrada é ladeado de vedações de arame farpado que delimitam os terrenos das estâncias e nos separam das florestas mais próximas. Não nos resta outra opção excepto continuar a avançar sobre este eixo principal, com um trânsito importante e sob uma chuva gelada, como se uma espécie de preparação mental nos estivesse a ser imposta… continuemos, isto há de passar! No instante em que cortamos finalmente para a Ruta Complementaria A que segue para Este em direcção ao cabo (ripio de boa qualidade e pouco trânsito), a meteorologia melhora até nos oferecer um belo dia. Estamos certamente na boa direcção!

 

A caminho da Estancia Maria Luisa
A caminho da Estancia Maria Luisa.

 

Seguem-se dois dias de bicicleta e duas noites bem agradáveis. Os dias são ritmados por estradas planas ligeiramente descendentes, que promovem uma relaxante sensação de deslize e estradas que sobem abruptas e nos obrigam a empurrar miseravelmente a nossa montada de quase 100 Kg. No primeiro caso, os guanacos correm ao longo da estrada e acabam por desaparecer na pampa, como uma escolta pessoal e selvagem; no segundo caso, os guanacos não arredam pé e emitem o seu som único e indiscritível (algures entre um chilrear de pássaro e um bébé que chora e ri ao mesmo tempo), rindo certamente da desgraça alheia (a nossa). Ainda na mesma estrada, fazemos uma paragem para pescar algo que possa completar o nosso jantar racionado. Conheci assim o Alejandro que, vendo-me pescar num rio que sabia ser pouco generoso, me ofereceu duas enormes fatias de pizza caseira, frutos e bolachas. No mundo dos nómadas em tandem, onde os dias de autonomia forçam um racionamento estrito, esta comida extra é um luxo de valor incalculável! Como bónus, observando o meu material de pesca mais do que básico, o meu interlocutor oferece-me duas magníficas cucharas que me trarão sorte no futuro. Volto assim da minha sessão de pesca muito desportiva com os braços cheios e vendo à Mariana os meus talentos de pescador. Deve ser isto a sorte de principiante.

 

Cabo San Pablo.
Cabo San Pablo.

 

Ainda a caminho.
Ainda a caminho.

 

Estes três dias de bicicleta, que tinham como objectivo final chegar à estância Maria Luísa, foram coroados pelo que podemos chamar de “oportunismo insolente do viajante”. Durante todo o dia: ninguém. Chegamos finalmente ao domínio da estância Maria Luísa, ao final do beco sem saída que é a Ruta A (o último troço transitável acessível ao comum dos mortais que se avança em direcção a leste, seguindo a costa Norte da península). Entretidos a observar um pequeno grupo de guanacos no bosque, somos ultrapassados por uma pick-up que pára 30 m à frente para abrir uma cancela na qual nós ainda nem tínhamos reparado. Contrariamente a todas as anteriores cancelas para gado que tínhamos atravessado, esta estava firmemente fechada à chave. Diz-se que a sorte favorece os audazes; não sei se somos audazes mas lá sorte temos! Aproveitamos para nos infiltrar atrás da pick-up e somos interpelados pelo proprietário da preciosa chave:
– Bom dia, sabem que é aqui que termina a Ruta A?
– Sim sim, mas nós queríamos ver se podíamos ir caminhar até um pouco mais longe…
– Mas sabem que para aceder à estância é preciso uma autorização? A partir daqui a estrada é privada.
– Huh… não fazíamos ideia. Vimos em bicicleta depois de alguns dias e pensávamos pedir aos ocupantes da estância para deixar a nossa bicicleta e continuar a pé até ao Cabo San Diego. A quem temos de pedir essa autorização?
– No hotel em Río Grande (a 4 dias de bicicleta).
– Ah…. Mas será que não podemos ver alguém daqui para falarmos?
– Sim, o encarregado da estância, que sou eu. Entrem e vamos ali ver o que se pode fazer.
Então, com os nossos três dias de bicicleta e calendário altamente preciso, chegámos exactamente no minuto crucial e se assim não fosse, teríamos sido rejeitados. Perfeito! Como se não bastasse, o condutor da pick-up (que mais tarde ficaremos a conhecer por Tommy) oferece-nos um donut bem gorduroso e doce…mmmmmmmh pimbas, mais um extra de comida no mundo dos nómadas tandemistas! Assinamos rapidamente o registo de passagem com o Diego (o nosso “encarregado-timming-perfeito”) e conversamos com Isabela, tia do puesteiro principal, enquanto esperamos a chegada deste último. Ao fim da tarde, chegam Morocco e o seu tio, que nos propõem nada menos que uma pequena casa independente com salamandra e duche para passar a noite… perfeito para preparar a partida para a longa caminhada.

 

A nossa casa para a noite na Estancia, onde deixámos o Quetzal.
A nossa casa para a noite na Estancia, onde deixámos o Quetzal.

 

O amanhecer do dia seguinte, o primeiro da nossa jornada, limpou o céu do granizo da véspera. Trouxe um Sol radioso e temperaturas amenas. Trouxe também o Sebastian, guia de pesca, que nos avança de um dia em relação ao esperado. Um pouco como nos jogos de tabuleiro, quando se tira uma carta da sorte que diz: “Tem uma boa estrelinha, avance 15 Km.” Damos então por nós a comer croissants num lodge de pesca de luxo, 15 Km mais próximos do Cabo do que previsto para essas 10 h da manhã. Pouco tempo depois, escapamos às garras do quarto e do quinto croissants, para não perdermos a boa hora de partida. 15 min mais tarde, chegamos ao nosso 1o rio (sim, porque na Península contam-se todos os rios atravessados como se fossem nossos), o Irigoyen, que atravessamos com água transparente até aos joelhos, como se do Amazonas se tratasse. Estamos enfim oficialmente na Península Mitre. Seguimos depois tranquilamente o Sol pela beira-mar até chegarmos à La Chaira, onde comemos uma apetitosa língua de vaca com o Fernando e com o Eto, facilmente duas das pessoas mais amáveis deste mundo, e também as últimas duas que veremos em algum tempo. Depois de uma noite bem dormida no quentinho, despedimo-nos da vaca morta aberta que seca ao vento pendurada pelas patas, e prometemos a Fernando passar ali outra vez na volta.

A praia é terreno fácil para caminhar.
A praia é terreno fácil para caminhar.

 

A praia na maré vaza.
A praia na maré vaza: mmmh… alguns km fáceis.

 

Praia rochosa.
Praia rochosa.

 

Bienvenidos à La Chaira.
Bienvenidos à La Chaira.

 

Ambiente de Puesto.

 

Os puesteros de La Chaira. Facilmente as pessoas mais amáveis deste mundo.
Os puesteros de La Chaira. Facilmente as pessoas mais amáveis deste mundo.

 

Aqui, a carne seca ao vento.
Aqui, a carne seca ao vento.

 

Os dois dias seguintes passam-se sem sobressaltos, seguidos pelo Sol, atravessando o nosso 2o rio, o Letícia, após 2 horas de espera da maré (quase) baixa, caminhando bucolicamente por praias selvagens a perder de vista, acampando ao lado de um puesto em ruínas, jantando sentados em vértebras gigantes de baleia, filtrando água para beber de poças de mosquitos formadas em bóias náuticas encalhadas de barcos inexistentes e chegando ao puesto Río Bueno, mesmo antes da tempestade. Boa notícia: faz um mês e meio que este (grande e escuro) Río Bueno tem a sua boca selada por um dique gigante de uns 4 Km de seixos insuportavelmente redondos; não temos, pois, de molhar os pézinhos. Má notícia: a maior tempestade que apanharemos na península cai-nos na cabeça como se de um tufão tropical se tratasse. Com medo que o telhado do puesto (ou o puesto inteiro) levantasse voo, pelo sim pelo não, não vá o Diabo tecê-las e o mundo acabar e apanhar-nos de barriga vazia, passamos o dia seguinte a enchermo-nos de pãezinhos doces que fazemos com a farinha e o açúcar disponíveis (prévia e generosamente oferecidos pelos homens de La Chaira) e que cozinhamos na salamandra acompanhados das trutas de mar de 4 Kg que saltaram para cima do Seb quando ele me disse que ia pescar, 5 min antes.

 

Vestígios de outros tempos.
Vestígios de outros tempos.

 

Banco de osso de baleia.
Banco de vertebra de baleia.

 

Osso de gigante.
Osso de gigante.

 

Perto do Río Bueno.
Perto do Río Bueno.

 

Rio Bueno
Río Bueno.

 

Ostreiro austral.

 

A calma antes da tempestade no Puesto Río Bueno.
A calma antes da tempestade no Puesto Río Bueno.

 

Preparando a truta pescada para o jantar.
Preparando a truta pescada para o jantar.

 

Boletim meteorológico da noite.

 

Boletim meteorológico do dia seguinte.

 

Truta grelhada.
Truta grelhada.

 

Pãezinhos doces em Puesto Río Bueno.
Pãezinhos doces em Puesto Río Bueno.

 

Sobrevivendo assim ao cataclismo sem sequer perder a força, arrancamos novamente no dia seguinte, esquivando-nos das gotas de chuva residuais até o Sol conseguir abrir caminho. Tudo se teria passado como previsto nos dois dias seguintes até ao encontro do Río Policarpo – entre praias de tatami perfeito para caminhar e colinas verdejantes – se não fosse mais um encontro com as vacas, à chegada ao puesto Donata. De puesto já tem pouco, uns cilindros estranhos e improváveis de cimento (?) que formam um quadrado pouco mais baixo que a nossa cintura. Ainda assim pomos a tenda no meio, fazemos barreiras de madeira, redes de pesca perdidas e ossos de baleia. Tudo isto para garantir que AS VACAS se mantêm à distância durante a noite. Já nos chegou há duas noites atrás, quando eu nem ousava fechar o zip do saco-cama com medo que as vacas que nos tinham lançado um cerco nocturno resolvessem investigar a tenda. Sim, eu sei que tudo isto pode parecer paranóico, as vaquinhas são animais tão pachorrentos e medrosos, mas esqueçam tudo o que sabem sobre vacas.

As vacas da península Mitre são haricas. E quanto mais perto do Cabo, mais haricas são. “Harico” é o termo usado pelos gauchos para designar um animal selvagem que anda em liberdade por onde bem lhe apetece. Como é evidente, com as vacas haricas andam os touros, os bezerros e os cavalos, todos eles haricos, pois claro. Perdemos horas, HORAS, à conta destas vacas. Num mundo sem humanos, as vacas não fogem das pessoas. Os touros muito menos. Num mundo sem humanos, as vacas pastam onde querem, como querem, o tempo que querem. E olhem que as vacas até têm uns belos cornos quando não lhos cortam, e os touros não só tem uns cornos ainda mais belos como são muitas vezes do tamanho de um urso.
Numa travessia de uma zona selvagem onde não há caminhos, nem sequer trilhos, feitos por pessoas, a melhor opção para ir avançando é, frequentemente, seguir os trilhos dos animais. Mais frequentemente ainda, os trilhos de um animal específico: a vaca. Descobrimos progressivamente, maravilhados, a extraordinária perspicácia das vacas para escolherem o melhor caminho, seja onde for: nos bosques, nas colinas, nas falésias, para atravessar rios. São espertas, eficazes e, ainda assim, preguiçosas, o que conduz a uma escolha de caminho fácil, seguro, optimizado. Escusado será dizer que seguir estes trilhos tão claramente talhados para nós, livres de perigos e vegetação incómoda, tem, como único (grande) inconveniente, o inevitável, e muitas vezes incontornável, encontro com os seus criadores, as vacas.
Das várias pessoas com quem falámos antes de partir para a península, nenhuma nos souber dizer o que fazer em caso de um encontro imediato com uma vaca, ou um touro. Além da vaga ideia que temos todos de touradas e do vermelhos ser uma cor pouco conveniente, pouco mais sabíamos sobre como enfrentar estes animais que, garanto-vos, quando não estão atrás de uma cancela nem têm medo de nós, podem parecer bastante mais ameaçadores do que se poderia esperar.
Imaginem-se a avistar ao longe, ao fim de umas 9 horas de dura caminhada (frequentemente molhados, gelados até aos ossos ou debaixo de uma carga de água), um refúgio onde sabem que há comida, calor, abrigo, e reparar, no segundo seguinte, que a zona está CHEIA de vacas e touros. E de bebés vaca, para se ter a certeza que as mamãs não vão arredar pé até o seu mais belo rebento estar na mais completa segurança. Pois. Uma treta. Que fazer? Não há nenhum outro abrigo a menos de um ou dois dias de caminho nem é possível passar ao largo, como tantas outras vezes se faz ao cruzar vacas no caminho. Não, há que usar a técnica certa para as fazer decidir-se a mudar de pasto.
Ao longo do nosso percurso, fomos desenvolvendo toda uma técnica de gestão de posicionamento de vacas que passo a explicar. Primeiro ponto fundamental: nunca apanhar uma vaca (e um touro muito menos) de surpresa. Máxima atenção em todas as curvas, lombas ou inclinações do terreno de visibilidade reduzida, particularmente quando os trilhos de vacas são bem marcados, quando há uns certos arbustos espinhosos que tanto apreciam para abrigo do vento, ou quando há caca fresca. Nunca uma vaca (ou um touro) se deve sentir em perigo ou encurralada. O ideal é mesmo fazer barulho, falar, de preferência, para que nos identifiquem como o ser humano pacífico  que avistam a cada 5 anos passando a pé.
Assim que a vaca reconhece a nossa presença duvidosa, pára de pastar, e começa toda uma dança de cortesia. A vaca olha para nós, nós olhamos para a vaca, sem mexer um só músculo. Às vezes a vaca faz um “muuuuuuu” prolongado, outras avança uns passos na nossa direcção. Nós damos uns passos para trás, para provar as nossas boas intenções, que não vimos por mal, que só queremos passar e seguir caminho. A vaca dá também uns passos para trás como se reconhecesse os nossos bons intentos. Nós voltamos a dar uns passos para trás (se for um touro, às vezes damos uns passos para trás bem mais rápidos, para que perceba ainda mais depressa que não somos uma ameaça). A vaca volta a dar uns passos para trás. Dependendo da vaca em questão, isto pode demorar uma boa meia hora. Por fim, a vaca decide que somos insignificantes mas, por via das dúvidas, parte na direcção oposta à nossa, às vezes correndo, outras vezes pastando, dependendo da sua audácia. Quando é um touro, sempre fica bem claro no ar que há entre nós (o máximo ar possível) que somos efectivamente insignificantes, minúsculos até. Adivinha-se o seu sobrolho franzido e olhar de través, e é indiscutível que a sua decisão de partir se deve única e exclusivamente ao facto de a erva estar indubitavelmente mais verde nesse momento uns 200 m mais ao lado e de o gasto energético e aceleramento cardíaco que poderiam resultar de uma corrida na nossa direcção claramente não compensarem a satisfação de dar uma boa cornada numa coisa tão insignificante e esquelética como nós. Controlando, então, cuidadosamente a nossa direcção de aproximação à vaca ou ao touro, podemos controlar (vagamente…) a direcção em que parte.

Taureau coopérant à Bahía Thetis.
Touro cooperante na Bahía Thetis.

 

A caminha de Donata.
A caminha de Donata.

 

Reflexos em praias lisas.
Reflexos em praias lisas.

 

Rochas vivas.
Rochas vivas.

 

Duchess of Albany.
Duchess of Albany.

 

Duchess of Albany.
Duchess of Albany.

 

Antigo Puesto Donata.
Acampamento anti-vacas  nas ruínas de Puesto Donata.

 

O nosso sexto dia na península bem que podia chamar-se o dia do Policarpo, ou da molha do Policarpo, ou, sei lá, da estupidez do Policarpo. Saímos tarde do nosso acampamento anti-vacas no puesto Donata. De qualquer forma, não adiantava nada sair cedo, porque o Río Policarpo era já ali ao lado e a maré vaza só lá para as três. E o Policarpo não é o tipo de rio que se possa atravessar quando se quer.
O Policarpo tem humores fortes, ou coeficientes de maré variáveis (de mais de 2 m), como lhes quiserem chamar, tem dias de abundância e de escassez, que dependem dos desvarios das montanhas que se adivinham ao longe e da sua neve que funde, ou da chuva que cai ou não do céu. E tem a sua cor, negra, negra e opaca, porque a turba (o famoso turbal da Costa Sul!) não se limita a ser um pesadelo por si só, estende também a sua influência maléfica até ao infinito (como quem diz até ao mar), como qualquer ser diabólico que se preze. Esta cor traiçoeira torna completamente impossível o conhecimento da profundidade do rio simplesmente por observação. 10 cm ou 10 m têm exactamente o mesmo aspecto quando vistos da margem. Resta uma solução baseada no conhecimento experimental.
Quando há uma ponte sobre um rio, torna-se rapidamente evidente o melhor sítio para um humano atravessar. Quando não há nenhuma ponte, nenhuma pessoa a quem perguntar e o único animal na zona é um pinguim, há que desenvolver ao máximo a capacidade de pré-análise antes de passar à acção. Para alguma coisa havia de servir um doutoramento em oceanografia costeira e outro em mecânica dos fluidos e turbulência. Analisaram-se os rastos imaginários de moto 4, as cartas desactualizadas do governo argentino, os turbilhões todos e mais alguns da água, a intensidade da corrente, o tipo de fundo esperado. Definiu-se assim a zona ideal para atravessar: perto da boca do rio mas já longe da influência das ondas, num tramo de uns 50 m de largura de água negra e gelada. Fartos de esperar pela maré vaza, enviámos a primeira cobaia: o Seb decide testar a passagem. Não vai sem mochila, eu não espero como devia, a maré não está suficientemente vaza, o céu está cinzento, faz frio, o negro da água mete medo, seja lá por que razão for, damos por nós finalmente do outro lado do rio encharcados até ao peito, consequência dos últimos 3 m da travessia e dos angustiantes passos finais em que me senti como um homem que caminha na lua e descobri que a deuter é sim senhora um excelente fabricante de mochilas que após submersão parcial conseguem manter secos os sacos-cama que estavam no fundo, sabe-se lá como, de certeza que não foi da capa para a chuva. Enfim, caminhamos molhados e humilhados mas vitoriosos até à abandonada estância Policarpo, chegando ligeiramente mais tarde do que o previsto, uma vez mais devido às sucessivas batalhas territoriais com os espécimes bovinos locais. Juramos ser mais sensatos no regresso, comemos para esquecer a molha e apreciamos a vista da Bahía Policarpo.

O pinguim.
O pinguim.

 

O infame Rio Policarpo.
O infame Río Policarpo.

 

Bahía Policarpo.
Bahía Policarpo.

 

No dia seguinte voltamos à estrada (ou à falta dela), por entre tempestades de chuva e vento de 15 min e abertas de 5 min e meio. A partir daqui acabou-se a vida boa, já não há mais prainhas lisinhas e colininhas verdinhas. Colinas sim, demasiadas colinas cravejadas de juncos. E bosques centenários e o refúgio Três Amigos, que até podiam ser três mas nem janelas tinha, e uma longa caminhada até ao refúgio a sério da Bahía Thetis, certamente uma das mais lindas do mundo, ou pelo menos deste fim de mundo.
Pena que além de ser linda seja também imensa e lodosa: do refúgio vê-se facilmente o outro lado, para onde nos dirigimos no dia seguinte. O que não se vê facilmente é o caminho para chegar ao outro lado, já que atravessar a nado os 500 m da boca da laguna não nos parece boa ideia, e que o famoso “barco do judeu” há de estar escondido algures nas dezenas de quilómetros de bosque que partem da antiga loberia e que dão a volta à laguna. Assim sendo, também nós damos a volta à laguna. Cada centímetro dessa volta. Entre ramos e margens lodosas, abrimos caminho por onde ainda menos pessoas passaram antes. Metemos as sandálias, atravessamos braços da laguna e atolamo-nos no lodo, perdemos umas boas 5 h, e tudo isto para estarmos exactamente na direcção do refúgio, mas do outro lado desta linda laguna. Felizmente não há mais lagunas até ao Cabo, só 10 Km de deliciosas colinas cravejadas de juncos e touros. Tudo isto sempre seguidos pelo guanaco-espião, assim baptizado em honra ao seu seguimento discreto mas firme ao longo de toda a nossa caminhada, sempre do seu posto na linha do horizonte.

 

Partindo da Estancia Policarpo.
Partindo da Estancia Policarpo.

 

Aqueles frutos secos que salvam o dia.
Aqueles frutos secos que salvam o dia.

 

Turbal, juncal, pasto. E o mar ao longe.
Turbal, juncal, pasto. E o mar ao longe.

 

Enfim se avista o Refúgio de Bahía Thetis
Enfim se avista o Refúgio de Bahía Thetis.

 

Antiga Factoria de Lobos de Bahía Thetis, 1946-1952.
Antiga Factoria de Lobos de Bahía Thetis, 1946-1952.

 

Ganso Cabeza Rojiza.
Gansos Cabeza Rojiza.

 

E mais um rio a cruzar...
E mais um rio a cruzar…

 

Aquele momento de felicidade do dia, na volta da Bahía Thetis.
Aquele momento de felicidade do dia, na volta da Bahía Thetis.

 

Bahía Thetis, a mais linda.
Bahía Thetis, a mais linda.

 

Natureza artista.
Natureza artista.

 

 

 

Tufos de... musgo?
Tufos de… musgo?

 

Flora austral.
Flora austral.

 

Condor andino.
Condor andino.

 

Assim como quem não quer coisa, chegamos por fim ao Cabo ao entardecer de Sol tímido do 8o dia, apenas um dia mais que os que tomou Deus quando criou o Mundo. E bom, não, verdadeiramente nada de excepcional este cabo! O efeito “wouhaa…” ao primeiro avistamento do farol abandonado foi certamente condicionado pelo facto de termos tido este ponto como objectivo na cabeça durante oito dias de caminho e ao longo de mais de uma centena de quilómetros. Rendemo-nos rapidamente às evidências: passar uma noite num velho farol bolorento, no meio de um cemitério de baterias que em tempos teriam alimentado a iluminação mar adentro, e sem poder subir ao cimo para apreciar a vista devido ao estado deplorável da estrutura metálica da escada… Bah, uma semana de esforço para isto?… Tal era a nossa primeira sensação ao chegar à ponta do cabo. Após uma pequena sopa revigorante no verdadeiro fim deste mundo, pensamos em tudo o que vivemos e vimos no caminho e reconsideramos: sim, fizemos verdadeiramente bem em vir!

Balise_San_Diego_Natural_Peak.jpg
E finalmente, o Faro do Cabo San Diego, a ponta do fim do Mundo. Ou pelo menos, deste Mundo.

 

No dia seguinte piscamos o olho à majestosa Isla de los Estados que nos vigia, fantasmagórica, lá do longínquo meio do mar e deixamos para trás as centenas de leões marinhos que se rebolam ao Sol e caçam o seu peixe por ali, completamente alheios ao facto de que a sua praia é, na verdade, a praia da ponta do fim do mundo. E é sua, independentemente de quantos mais de nós decidirem ir até lá em busca de uma vã medalha de fim de mapa.

 

Colónia de lobos marinhos no Cabo San Diego.
Colónia de lobos marinhos no Cabo San Diego.

 

Lobos marinhos.
Lobos marinhos.

 

Lobos marinhos e a águia.
Lobos marinhos e a águia.

 

De partida do Faro, adivinha-se ao longe a Isla de los Estados, o último pedaço de terra depois desta ponta de fim de mundo.
De partida do Faro, adivinha-se ao longe a Isla de los Estados, o último pedaço de terra depois desta ponta de fim de mundo.

 

Na volta, cometemos menos erros, molhamos menos a roupa, atravessamos rios de olhos fechados que afinal isto não é a Amazónia, e caminhamos muito cada dia, para passar todas as noites ao quente nos refúgios, e chegar finalmente ao lodge dos pescadores para comer robalo fresco grelhado e encher a barriga com os cozinhados do Mauro para repôr, pouco a pouco, os quilos perdidos e voltar à realidade.

Talvez por a meteorologia ter sido mais clemente, por o corpo estar mais em forma ou, simplesmente, por a preparação psicológica já ter sido feita no lado Sul, saímos deste lado Norte com a sensação de que, isolamento (necessidade de auto-preservação acima de tudo) e autonomia (peso inicial das mochilas não negligível) à parte, o único verdadeiro desafio deste lado da península, para uma pessoa sensata e em boa condição física, é o Río Policarpo.

 

Refúgio de Bahía Thetis.
Refúgio de Bahía Thetis.

 

Gelados após mais uma infame travessia do Policarpo. Às sete da manha (maré vaza), em cuequinhas, à chuva, com água pelo peito. Uma maravilha para a circulaçao.
Gelados mas felizes (mesmo orgulhosos do nosso profissionalismo desta vez) após mais uma infame travessia do Policarpo. Às sete da manhã (maré vaza), em cuequinhas (censurado), à chuva, com água pelo peito. Uma maravilha para a circulação.

 

No fim do arco-íris nao há um pote de ouro, mas há um Pescador de Trutas.
No fim do arco-íris não há um pote de ouro, mas há um Pescador de Trutas feliz.

 

Duplo arco-íris duplo ao lado de Río Bueno.
Duplo arco-íris ao lado de Río Bueno.

 

Os banhos de refúgio.
Os banhos de refúgio.

 

E que ninguém duvide do vento da Tierra del Fuego. Não, não estava a exagerar.

Os guanacos, os animais mais peluche deste pedaço de mundo.
Os guanacos, os animais mais peluche deste pedaço de mundo.

 

Travessia do Río Leticia.
Travessia do Río Leticia.

 

 

Série: formas costeiras.

Ripples.

Ripples.
Ripples.

 

Reflexos ripplescos.
Reflexos ripplescos.

 

Prismas rochosos.
Prismas rochosos.

 

Rochas redondas.
Rochas (muito) redondas.

 

Cabeças de rocha improváveis.
Cabeças de rocha improváveis.

 

Um delta em miniatura.
Um delta em miniatura.

 

Diferenciaçao granulométrica artística.
Diferenciação granulométrica artística.

 

Rios que escorreguem por baixo de diques rochosos.

Série: Retratos de salamandras.

Puesto La Chaira.
Puesto La Chaira.

 

Puesto Río Bueno.
Puesto Río Bueno.

 

Estancia Policarpo.
Estancia Policarpo.

 

Estancia Policarpo.
Estancia Policarpo.

 

Refúgio Três Amigos.
Refúgio Três Amigos.

 

Bahía Thetis.
Bahía Thetis.

 

Fernando – Eto – Damian – Mauro y Cintia – Tommy – Moroco y Isabela – Diego y Mariana – Seba. 

 

13 Responses

  1. Excellent de vous lire, ca m’évade, c’est génial. Continuez, soyez prudents et partagez vos aventures, c’est bon ça !!! Merci les amis. Bise

  2. Super, ce beau récit et ces photos magnifiques ! Merci de nous faire partager vos aventures et vos rencontres bovines de manière aussi vivante : on se sent mouillé et on se retourne pour voir s’il n’y aurait pas une vache intrépide derrière nous …

    Bisous

  3. Muito bom ir acompanhando o vosso blog….assim também caminhamos um pouquinho por essa terra tão bela e bravia… As fotos são lindas….
    Obrigada pela partilha de 10 dias desse vosso projeto de viagem com a geração dos progenitores…
    Foram magníficos!…
    Beijinhos e boa continuação

  4. Muito bem, muito bem!

  5. Maria Filomena Gonçalves

    Ena! Que maravilha podermos ver, sem sair do sofá, esses locais fantásticos. Vocês deviam, no fim, escrever um livro de viagens. É fabulosa a forma como nos fazem “sentir” e “viver” experiências tão fortes. Obrigada do fundo do coração. Continuem a contar o vosso caminhar de viajantes, eu continuo a rezar para que Nossa Senhora da Boa Viagem vos proteja e ajude em cada momento. Mil beijinhos
    Mena

  6. Ahhhhhhhh j’adooooooore votre récit!!! Le style, l’humour, et… Tellement vous!!!!
    Pis vous me faites bien rêver!!!
    Bref, ça fait du bien de vous lire, de voir vos bouilles, et je vous souhaite encore et encore de bien belles aventures!! Bisous les copains!!

  7. C’est super sympa de lire ce beau récit-photos après vous avoir suivi en direct sur le live-tracking depuis le bureau,
    alternant Findmespot.com, Google Earth et MétéoBlue pour essayer d’imaginer à quoi ça pouvait ressembler le paysage et quelle pouvait être “l’ambiance” là-bas 🙂
    Finalement, c’est encore plus flambant que ce que j’avais imaginé !!! 🙂
    Bises

  8. Un besito les amis, je prends enfin le temps de vous lire, quel plaisir entre 2 corrections de copies! J’espère que vous êtes toujours au top, je vous embrasse fort!

  9. Génial les gars!!!! Bravo!! Gasp

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